quinta-feira, 3 de julho de 2008

Uma voz do Nordeste


"Boa noite, gente rica
De sabença e inducação,
Peço que descurpe os êrro
Desta minha falação.
Não conheço português,
Apois eu por minha vez
Nunca mexi com papé,
Mas vou falá na linguage
Da minha gente servage,
Entenda lá quem pudé!


Se eu nunca fui à escola
Inducação eu não tenho,
Mas porém peço licença
Mode eu dizê de onde venho
E onde é meu torrão querido,
Lá onde eu tenho vivido,
Que eu não quero que arguém pense
Que eu sou sujeito de fora,
Apois eu tive a gulora
De também sê cearense.

Eu sou fio de Assaré,
Onde viveu meu avô,
Lugá do meu nascimento
Que fica no interiô,
De junto do Cariri.
Nasci e me criei ali
Sem nunca saí de lá,
E vou dizer sem segredo:
Ando aqui com munto medo
Dos carro me machucá.
.

.

.

É muito mais boa a vida
Da minha gente matuta,
Lá onde tudo é sossego,
Lá onde ninguém escuta
Essa zoada mardita,
E onde tombém se acredita
E se crê no coração
Em munta coisa da vida
Que essas pessoa sabida
Chama de surprestição


Sei que aqui tem munta gente
Sabida que é bem capaz
De lê de trás pra diante
E de diante pra trás.
Home de boa conveça,
Que sabe o nome das peça
Do vapô e do avião,
Do carro e da bicicreta,
Mas não conhace as dieta
Da vida do meu sertão.
.
.
.

Lá não tem ninguém sabido,
Mas a vida é resguardada.
Por inzempro, no sertão
A coisa munto arriescada
Que a muié do sertanejo,
Inda que tenha desejo
Nunca faz nem nunca fez,
É comê banana geme
Pruquê comendo ela teme
Tê dois fio duma vez."

Versos do poema, No meu sertão.

Patativa do Assaré

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